Sobre a importância de falar de amor

 

Todas e todos nós desejamos viver o amor de forma feliz, certo? Acredito que a resposta a essa pergunta seja positiva. Então, todas e todos nós conversamos sobre o amor, de modo a sermos mais felizes, certo? Errado! Embora o amor seja objeto do nosso desejo e de nossas fantasias, esteja muito presente em nossas produções culturais – música, filmes, séries, novelas, literatura –, muito presente nas piadas e brincadeiras que fazemos, nós pouco falamos sobre ele de forma séria. Parece haver entre nós uma crença secretamente compartilhada de que falar de amor é uma fraqueza, coisa de gente “muito sentimental” ou “mal resolvida”. Como se viver o amor fosse algo que soubéssemos instintivamente, e então seria mais importante cuidarmos de coisas mais concretas e objetivas.

Não concordo com essa crença secreta. Como psicóloga clínica, vejo como as questões do amor são frequentemente trazidas para o ambiente protegido da psicoterapia. Como pessoa, já tive oportunidade de compartilhar dores de amores em conversas profundas com amigas e amigos, sentindo-me acolhida e acolhendo também. Nós nos relacionamos de forma complexa e muitas vezes não tão feliz como gostaríamos. E é pensando nisso que eu promovo, já há alguns anos, espaços de conversa e vivência sobre o amor, em grupo. Quero, aqui, compartilhar algumas reflexões sobre a importância dessas conversas.

Inspiração…

Uma leitura preciosa para mim é o livro “All about love: new visions”, de bell hooks (ainda sem tradução em português). A autora nos traz, logo na introdução, a percepção de que todas e todos nós queremos saber mais sobre o amor, mas vivemos uma grande incerteza cultural sobre ele: em todo lugar nós aprendemos que o amor é importante, e somos igualmente bombardeadas/os por evidências do seu fracasso. Além disso, ainda acreditamos que a família é a escola básica de amor saudável, mas esse amor familiar muitas vezes nos ilude e nos deixa marcas dolorosas, que carregamos conosco pela vida, esperando que elas sejam curadas em um relacionamento atual. Feridas e feridos, nós nos fechamos para o amor (mesmo que conscientemente expressemos o desejo de encontrá-lo). Na colocação de bell hooks, para voltarmos a abrir nossos corações nós precisamos ousar reconhecer o quão pouco sabemos sobre o amor, na teoria e na prática. Devemos encarar o desapontamento e a confusão de que muito do que nos foi ensinado sobre a natureza do amor não faz muito sentido quando aplicado na vida diária.

Concordo muito com ela. Falar de amor, especialmente em grupo, é um exercício de abertura e coragem. É poder se encontrar com as próprias dúvidas e vulnerabilidades, e poder também ter a grata surpresa de ver que outras pessoas estão na mesma, que estamos todas e todos no mesmo barco. Nossa vida amorosa e nossa afetividade são uma construção complexa, feita de alegria e tristeza, saúde e doença, encontros e desencontros. E tudo bem ser assim. Não dependemos apenas de experiências prazerosas para viver bem o amor. Pelo contrário, plenitude é poder viver tudo. E a abertura e coragem dessa experiência trazem força.

Com a palavra…

Quero fechar esse escrito dando voz ao grupo! Na roda de conversa online cujo tema foi “Dona de mim”: o que é ser mulher e viver o amor, muitas das pessoas participantes comentaram o quanto foi bom compartilhar visões, opiniões e vivências, ouvirem umas às outras. Nas palavras de uma delas:

Fica o sentimento que tem mais pessoas buscando o amor. Buscando se conhecer. Me senti “pertencer” a alguma tribo! Mesmo que seja por aquele curto período.

Que sigamos buscando, com alegria e coragem!

Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais. Em minha busca por ser uma pessoa melhor, já fiz diversas terapias e percorri um bom caminho de autoconhecimento. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo". Apaixonada por música, livros e boas conversas.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.