Relacionamentos abusivos e o perigo de ser especial

Menina sentada em chão de pedras, sozinha, com vestido que lembra os dos contos de fadas. Aparece apenas a metade inferior do seu corpo.
Imagem de Incygneia por Pixabay

Começo esse escrito relatando o resumo de uma cena dramatizada na vivência “Você me vira a cabeça”: amor e sofrimento, realizada em setembro de 2020, pela plataforma Zoom, fazendo parte da jornada sobre relacionamentos amorosos Encontros & Desencontros. A vivência foi conduzida com a metodologia do Psicodrama.

Esther[1] nos conta que está em um momento delicado na relação conjugal, e que já identificou a repetição de um padrão aprendido com a mãe. Eu, como diretora, observo que a sua história mobiliza outras pessoas do grupo, e que assim Esther pode ser uma protagonista – aquela que sintetiza, em sua vivência, aspectos da sua vida e também do grupo ali constituído.

Peço que Esther traga a mãe para nosso espaço cênico-virtual, representando seu papel. A mãe conta sua história, e ali fica evidente que estamos tratando de uma linhagem de mulheres fortes e batalhadoras –  é assim com a avó de Esther, com sua mãe e com ela, que nos é apresentada como uma menina forte e doce, primeira filha, a “estrelinha” da mãe, que cuida dela e da família. Esther volta ao seu próprio papel, e outra mulher passa a representar a mãe. Peço à filha que diga à mãe o que precisa, nesse momento: “Preciso viver a minha vida, pois fui sobrecarregada”; “Preciso me desmisturar de você”. Começa a pedir que à mãe a libere, transferindo a ação para ela. É difícil ir além.

Pergunto a Esther, então, quem ela vê ali, na telinha do Zoom, e ela nomeia três mulheres. Peço que ela veja em uma delas a avó, em outra a mãe, e na terceira a si mesma – mulheres fortes, que se amam, mas que são diferentes, únicas. Ela leva um tempo para desmisturar as três, mas consegue. E então consegue ir além em sua fala para a mãe: “Eu sou Esther, sua filha. E não sua mãe”; “Não posso mais cuidar de você como se fosse sua mãe”; “Eu abro mão desse papel de estrela e de heroína”; “Eu sou só uma pessoa normal e tenho limites”.

Ao final da cena, normalmente vamos para a etapa do compartilhar, e todo o grupo estava sensibilizado com a questão dos limites. Pessoas se identificaram com a história, surgindo relações com pais, mães, trabalho… Como é difícil admitir os próprios limites, abdicar do poder que supomos ter quando ocupamos esse lugar especial, ser “só mais um”, “só mais uma”…

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No outro texto escrito a partir dessa vivência (Por que um relacionamento não pode te completar) eu dizia sobre o risco que corremos ao colocar o relacionamento amoroso num lugar especial demais, esperando que ele nos complete. Aqui, olhamos para outro perigo, de forma complementar: o de sermos, nós mesmas/os, colocadas/os num lugar muito especial: o de quem é forte e por isso aguenta muito; o típico papel de salvador/a, aqui representado na figura da Estrela. Esse é um papel muito sedutor, que nos dá a ilusão de poder e costuma alimentar nosso ego com frases do tipo: “Você é demais, sem você eu não conseguiria” ou “Se fosse qualquer outra pessoa já teria desistido (de mim, de nós, dessa relação), mas você é diferente, é forte”. E essa fantasia de onipotência frequentemente nos faz perder a noção de nossos limites e traz sobrecargas, como relata Esther na cena acima, nos levando a sustentar situações que nos ferem, suportando o insuportável. Até quando?…

Nosso modo de viver contemporâneo nos convida, a todo momento, a buscarmos ser especiais: viver os melhores momentos, ter o melhor desempenho, postar as melhores fotos, sermos pessoas “diferenciadas”. Tudo para quê? Para recebermos amor, admiração, reconhecimento. Vamos pensar com calma e crítica: nós não precisamos ser especiais. Vou repetir: nós não precisamos ser especiais. O que precisamos é ser amadas/os, vistas/os, reconhecidas/os, respeitadas/os. Nos sentirmos pertencentes. E, para pertencer, não precisamos nos destacar. Precisamos nos relacionar – olho no olho, face a face. Sem destaque, com proximidade e presença.

Fica, então, a proposta-convite: que possamos simbolicamente tirar a capa de super-heróis e super-heroínas, abrir mão desses lugares especiais, nos permitindo ser pessoas comuns. Que coloquemos limites naquilo que nos fere. Que sigamos firmes na busca por desenvolver nossa inteligência emocional, relacional e social para que possamos nos sentir dignas/os de ser amadas/os como somos, com nossa força e nossas limitações, sem ter que passar dos nossos limites. Nós e todas as pessoas ao nosso redor, sem especialidades.

Termino com uma inspiração musical: a canção “Insustentável”, do Sérgio Pererê, artista mineiro que eu adoro. Aqui a canção é interpretada por ele e pela Laís Lacôrte. Desejo felicidades críveis, para todas e todos nós.

[1] Escolhi um nome fictício, a fim de preservar a identidade da pessoa que trouxe sua história para a dramatização.

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Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais, depois da pandemia só online. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo" - companheira do Fred e boadrasta da Manu. Apaixonada por música, livros e boas conversas.

2 comentários em “Relacionamentos abusivos e o perigo de ser especial

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