O que é ser mulher e viver o amor: Reflexões

 

Me perdi pelo caminho, mas não paro, não…
Já chorei mares e rios, mas não afogo, não…

Escolho esses versos de “Dona de mim”, canção gravada pela Iza, para iniciar essa reflexão, porque creio que eles são representativos da trajetória de toda mulher. Cada uma com suas singularidades, todas temos trajetórias de busca, luta, tristezas e alegrias, e de continuarmos firmes em nosso caminho. E quando o assunto é vida amorosa, acredito que eles retratam tanto uma realidade quanto uma inspiração.

Nossas ideias sobre o relacionamentos afetivo-sexuais têm muita inspiração no tão famoso ideal de amor romântico, um enredo em que ter um relacionamento feliz é chave imprescindível para nossa felicidade e que nos coloca, homens e mulheres, em posição de busca incessante pelo “grande amor”, muitas vezes traduzido como nossa “alma gêmea”. Não vou me estender muito nesse tema – já escrevi um outro texto sobre ele, para ler clique aqui. Quero falar um pouco mais sobre os papéis de gênero nesse script amoroso e, mais especificamente, sobre o papel da mulher: nessa visão mais tradicional, é atribuída aos homens uma imagem de racionalidade, força e de provedor material, enquanto às mulheres é associada a imagem de sensibilidade, fragilidade e cuidados com o outro. Nós já sabemos que essas imagens não fazem sentido na vida real, mas de alguma forma elas ainda estão presentes lá no fundo daquilo que esperamos do amor.

Relações idealizadas ou vividas segundo esse script acabam tendendo ao desequilíbrio entre as partes. Vejamos: são enredos em que uma das pessoas envolvidas salva a outra, como se uma fosse forte e a outra fosse fraca. Evidentemente, essa premissa conversa intimamente com o machismo, a crença de que um dos gêneros (no caso, o masculino) é superior ao outro, devendo, portanto, lhe proteger e, atrelado a isso, tendo poderes para lhe dominar. Sim, a dominação masculina sobre as mulheres e sua institucionalização, o patriarcado, estão na base de nossas histórias de amor romântico. Podemos ver isso em nossos contos de fada mais clássicos, em que o príncipe salva a princesa, e que alimentaram, por muitas gerações, “a crença, por parte das meninas, de que sempre haverá alguém que irá cuidar delas” – palavras de Colette Dowling em seu livro “Complexo de Cinderela”, editado pela primeira vez em 1981 e ainda atual…

Possibilidades de ir além

Mas felizmente há outras formas de vivermos o amor! A psicóloga e escritora Clarissa Pinkola Estés, em seu também aclamado livro “Mulheres que correm com os lobos”, nos apresenta uma pequena nota sobre o conto da Bela adormecida:

(…) a jovem desperta, não porque recebe o beijo do príncipe, mas porque está na hora… a maldição de cem anos está encerrada, e chegou a hora de acordar. A floresta de espinheiros em volta da torre desaparece, não porque o herói seja superior, mas porque a maldição terminou e chegou a hora.

Aí está. Um dos mais tradicionais contos de fada, que já nos colocou, meninas e mulheres, a sonhar com a chegada do príncipe-salvador, recebendo uma releitura que devolve o protagonismo à princesa-mulher. E com informações que estavam disponíveis desde sempre, no conto original. Lindo, né?

Outros contos de princesas, mais atuais, também retratam mulheres vivendo o amor de forma importante e transformadora, mas com outra ênfase. É o caso, por exemplo, de Valente (Pixar, 2012), em que a princesa Mérida não deseja se casar, e a grande história de amor que move a trama é a dela com a mãe; de Frozen (Disney, 2013), em que a grande história de amor é entre duas irmãs; e de Malévola (Disney, 2014), uma releitura da história da Bela Adormecida, em que o beijo de amor verdadeiro que desperta a princesa do sono não é o do príncipe, mas (Spoiler!) o da própria fada transformada pela dor em vilã, que tinha lhe amaldiçoado.

Desejo, de coração, que atualizemos nossas visões e crenças sobre o amor. Que busquemos e alcancemos vivências amorosas mais saudáveis, em que sejamos donas de nossas vidas e de nossas escolhas, em que o amor seja visto e vivido por todas e todos nós como uma força transformadora, na esfera dos relacionamentos afetivo-sexuais e indo além, em todas as nossas relações sociais.

Com a palavra…

Com a palavra final, a inspiradora Iza:

Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais. Em minha busca por ser uma pessoa melhor, já fiz diversas terapias e percorri um bom caminho de autoconhecimento. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo". Apaixonada por música, livros e boas conversas.

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