O lugar da paixão na nossa vida

Qual é o lugar que a paixão ocupa na sua vida? Como você se relaciona com ela? Ao me propor esse texto, lembro-me de mim mesma, em meus primeiros envolvimentos amorosos, e de como tudo aquilo era confuso! Um mix de sentimentos, que variavam entre uma alegria imensa e um mal-estar terrível. Parecia uma criança com um brinquedo novo, lindo e brilhante, que saía pra brincar, tinha muito prazer, mas normalmente me machucava com ele. Voltava pra casa chorando e com uma forte impressão de que, se tinha me ferido, era porque não sabia brincar daquilo – defeito meu. Levei muito tempo (o natural amadurecimento, facilitado pela preciosa psicoterapia) para entender que aquele brinquedo maravilhoso é meio mágico, e por isso confuso mesmo, pra todo mundo. Que não há nada errado em se machucar e se curar. E que aquele brinquedo, chamado paixão, não é sempre a mesma coisa que o amor.

Robert Sternberg nos traz a paixão como um dos componentes do amor, juntamente com a intimidade e a decisão/compromisso – eu escrevi um texto apresentando sua teoria triangular, está aqui. A paixão é o elemento do amor mais ligado às nossas respostas fisiológicas, e por isso nos alteramos tanto quando a experimentamos: o frio na barriga, a excitação física e mental, a imensa motivação para estarmos cada vez mais perto de quem nos desperta tudo isso. Mas há mais, muito mais, no amor.

Trago aqui a fala do Pedro Calabrez, pesquisador em neurociências, sobre o que acontece com nosso cérebro e nosso comportamento sob efeito da paixão e que rumos o amor pode tomar quando vamos além dela:

Acho interessante observarmos a convergência dessa fala com a teoria triangular do amor: muitas vezes nós começamos nossos relacionamentos afetivo-sexuais na forma da paixão, que quando é combinada com a intimidade se manifesta como amor romântico, o tipo de amor mais fantasiado na nossa cultura. Com o tempo, a paixão naturalmente diminui, e aí é possível que desenvolvamos o amor companheiro, citado pelo Pedro no vídeo e conceituado por Sterneberg como uma combinação entre os componentes de intimidade e compromisso. Mas essa é uma possibilidade: só faremos assim se quisermos e, claro, se nos esforçarmos. E ainda há a chance de vivermos o amor com os três componentes combinados: amor pleno, que é lindo, mas dá trabalho para se manter.

A grande questão é que nossa cultura superestima a paixão: buscamos, em várias esferas da vida, a excitação, a novidade, a “motivação que vem de dentro”. Temos mais incentivos para procurar por isso, e menos para trilhar caminhos de construção conjunta, de companheirismo, de manter o interesse mesmo quando as condições são adversas. Assim, muitas vezes podemos entender que há um problema com o relacionamento se o “fogo da paixão se apagou”, e partimos para a próxima, e para a próxima…

Acho isso injusto. Injusto com o amor, que fica diminuído, confundido com apenas um dos seus aspectos, perdendo sua grandiosidade. Injusto com a paixão, que tem que responder por coisas que vão muito além do que ela dá conta. E acho injusto também conosco, que ficamos confusas/os e perdemos oportunidades de viver relações legais, sejam baseadas na paixão ou como um amor mais sólido, assumindo nossas escolhas.

Fica, então, a sugestão: que valorizemos a paixão pelo que ela é: algo bonito e excitante, que nos chacoalha, “dá uma turbinada” na vida e nos relacionamentos. Que nos lembremos que ela é uma parte do amor. Uma parte importante, mas que divide espaço com outras partes. E que temos escolha de viver relações em que o amor se apresente de diferentes formas. Se soubermos nomear e diferenciar essas coisas, talvez sejamos mais livres e felizes.

Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais. Em minha busca por ser uma pessoa melhor, já fiz diversas terapias e percorri um bom caminho de autoconhecimento. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo". Apaixonada por música, livros e boas conversas.

2 comentários em “O lugar da paixão na nossa vida

  1. Parabéns pela estrutura do trabalho que me deu a oportunidade de refletir sobre a minha forma de amar e de convidar-me a observar o coletivo, nesta tarefa que nos cabe e exige que tenhamos uma participação ativa.
    A Saúde é nosso maior capital nesta terra, devemos está atentos aos sinais. Gratidão por nos provocar ao autocuidado intimamente ligado ao autoconhecimento.Viva a vida!

    1. Ei, Beth!
      Que bom que o texto tocou aí e levou a boas reflexões.
      Também acho que é uma tarefa tanto individual quanto coletiva, e que nos exige e é bela.
      Grata pela presença na minha trajetória! Grata pelo retorno!

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