Em busca de uma ética amorosa nos nossos dias

Este texto surge de reflexões feitas a partir da jornada sobre relacionamentos amorosos “Encontros & Desencontros”, mais especificamente da vivência realizada em agosto de 2020, com o tema “Vamos nos permitir”: sobre viver o amor em tempos líquidos.

Chamar a pós-modernidade, tempo em que vivemos, de tempos líquidos é uma ideia desenvolvida pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017). A liquidez dos nossos tempos faz referência à velocidade com que as coisas mudam e é a uma analogia com o estado líquido da matéria, em que ela não tem forma predefinida, mas flui facilmente e se adapta à forma do recipiente em que se encontra no momento. Bauman afirma que na contemporaneidade os relacionamentos carecem de solidez, de uma forma firme, que inspire segurança às pessoas e instigue a construção de histórias longas. Pesa a liberdade, muito mais do que a estabilidade.

Acompanhando o raciocínio do autor, acredito que podemos ir além: será que todas as relações que construímos hoje em dia estão fadadas à fugacidade? Em outras palavras: será impossível construirmos algo sólido nesses nossos tempos? Creio na possibilidade dessa construção, sim. Por mais que nós desejemos viver a liberdade, também ansiamos por viver o amor e o pertencimento. Voltando à metáfora, mudanças no estado da matéria acontecem: o que era líquido pode se solidificar ou se tornar gasoso, e vice-versa. E hoje o imperativo não é a liquidez enquanto estado, mas a mudança que ela traz em si. Porém, operar essas mudanças e construir relacionamentos firmes em nossos dias nos exige mais esforço do que antes. Os relacionamentos não vêm prontos, e isso nos exige coragem para viver o amor em construção, de forma autêntica. Além disso, acredito ser fundamental um exercício constante de reflexão sobre a ética na nossa vivência amorosa.

Considero a ética, aqui, como a filosofia do comportamento. Mais do que definir valores e códigos de conduta, ela nasce da reflexão, em busca de sentido para nossas ações e para a vida em sociedade. E tem uma pergunta que considero um bom norte nessa busca: Qual é a qualidade com que vivemos os nossos encontros amorosos? Seja de forma bem casual e líquida, ou no esforço consciente de construir um amor mais sólido, estamos presentes perante a outra pessoa, de forma genuína? Mesmo num encontro que não seja feito para durar, penso que é fundamental alimentarmos em nós a capacidade de nos relacionar, ver a outra pessoa e considerá-la como alguém que, assim como nós, busca ser feliz e tem o seu valor, e não como um mero objeto de satisfação de nossas necessidades, desejos e expectativas.

Deixo alguns pontos que considero importantes para o nosso desenvolvimento relacional. São pontos que normalmente trabalhamos em processos terapêuticos de forma mais profunda e cuidadosa. Não desejo construir um manual de saúde nas relações, mas fomentar uma reflexão ética que nos ajude a construir relacionamentos com maior qualidade:

  • Um bom relacionamento conosco, em nossa individualidade, com consciência das próprias necessidades, vulnerabilidades, expectativas e forças.
  • Conhecimento da/s outra/s pessoa/s com quem nos relacionamos. Buscar enxergar e ouvir o outro com atenção, interesse e respeito pela sua individualidade e alteridade, tentando separar o que é dele e o que é nosso (nossas necessidades e expectativas).
  • Consciência de que a/s outra/s pessoa/s não tem a obrigação de atender as nossas necessidades e expectativas – e que nós também não temos essa obrigação com ela/s.
  • Prezar por uma boa comunicação. Nas mensagens que emitimos e na qualidade da escuta.
  • Ter em mente que nem sempre a/s outra/s pessoa/s terá/ão essa clareza que buscamos na comunicação. Além da comunicação verbal, é importante prestar atenção ao que é dito de outras formas (por nós e pelo outro). É preciso confiar, também, na própria intuição e discernimento, para fazer boas escolhas.
  • Cultivar a capacidade de lidar com nossas próprias dores e frustrações. Os desencontros acontecem em qualquer relação, e é responsabilidade nossa (e não do outro) cuidar de nossas feridas. Essa capacidade nos ajuda a aprender com nossos encontros e desencontros, além de nos fortalecer para prosseguirmos no caminho do amor.

E você? O que acha a respeito dessa reflexão sobre a ética nos relacionamentos? Que outras ideias te ocorrem? Me conte nos comentários, vamos caminhar juntas/os nessa busca!

REFERÊNCIAS:

Bauman, Z. (2004). Amor líquido: sobre a fragilidade das relações humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

Palestra do psicanalista Cláudio Cohen sobre a Ética nos relacionamentos, no programa Café Filosófico em 2006 – para assistir clique aqui.

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

 

Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais. Em minha busca por ser uma pessoa melhor, já fiz diversas terapias e percorri um bom caminho de autoconhecimento. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo". Apaixonada por música, livros e boas conversas.

2 comentários em “Em busca de uma ética amorosa nos nossos dias

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