Kintsugi e como lidamos com nossas dores

Há pouco tempo, postei aqui um texto sobre as expectativas que criamos e como lidar com as possíveis frustrações que vêm daí (para ler o texto, clique aqui). Hoje resolvi me deter um pouco mais nessa lida com as frustrações, com as dores e quebras da nossa vida. E para falar disso, me ocorre a imagem, como uma metáfora, do Kintsugi, uma técnica japonesa de restauração de cerâmica, em que as fissuras produzidas pela quebra são preenchidas com uma mistura de laca e pó de ouro. Assim, as imperfeições, marcas do dano, não são escondidas. Pelo contrário, elas valorizam a peça reconstruída de maneira criativa, dando um novo valor a ela.

Esse vídeo da School of Life descreve bem o que é a técnica e como ela nasceu:

 

Na nossa vida, muitas vezes nos deparamos com quebras, e tendemos a considerá-las como um fim. Ou então a relevar “de qualquer jeito”, engolir a situação e continuar a caminhar, pois “não tem outro jeito”. E penso que o Kintsugi tem algo a nos ensinar, nesse sentido.

No plano individual, nos deparamos com nossas imperfeições, defeitos e erros. A frustração de um projeto ou plano. A dor de perder alguém querido. O sofrimento que vem de passarmos por uma situação difícil.

No plano dos relacionamentos, vivemos desilusões. Brigas, desentendimentos, decepções com amigas/os, companheiros/as, parceiros/as, familiares. A outra pessoa não é aquilo que esperávamos, quebra-se uma imagem, um ideal.

De acordo com o Kintsugi , nem tudo o que se quebra deve ser descartado. Algumas peças merecem reparo para se tornarem ainda mais valorosas do que eram. Em nossa vida, algumas de nossas quebras merecem nossa atenção e respeito, a fim de serem cuidadosamente reparadas e curadas. A dor ensina. A desilusão (desfazer a ilusão) é importante para que relacionamentos cresçam e se tornem mais reais.

Mas aqui quero destacar alguns pontos importantes:

  • Esses aprendizados e curas não acontecem “num passe de mágica”. É necessário viver o processo, se dedicar a ele para crescer com o que a dor tem a ensinar. No Kintsugi, o processo de reparação demanda cuidado, trabalho, tempo. Não é remendar de qualquer jeito. Não é reciclagem. É arte, em que se emprega pó de ouro, um material muito precioso. Na nossa vida, reparar essas quebras também exige trabalho e cuidado. Respeito e muitas vezes perdão. E o nosso ouro, investimento da nossa energia de vida. Atitude e dedicação. E leva tempo.
  • Justamente por não ser um reparo qualquer, não dá pra fazer isso com tudo o que se quebra. Não temos energia disponível para isso, e se fosse o caso de reaproveitar tudo o que se danifica, nos tornaríamos acumuladores, e não é essa a ideia. Na história da origem do Kintsugi, a peça em questão era a tigela de chá favorita do shogun. Em nossa vida, é necessário discernimento para eleger aquilo que precisa – e merece – ser consertado.

Para mim, existe um critério muito claro para essa escolha: Nós sempre merecemos nossa atenção e cuidado para sermos “consertados”, porque somos valiosas e valiosos. Nossas dores emocionais, ao serem curadas, deixam em nós marcas que nos tornam “peças”/pessoas únicas. Como cicatrizes, que atestam nosso poder de cura e superação. E isso é bonito.

Quanto aos relacionamentos, eles não dependem só de nós e aí é necessário avaliar com critérios muito específicos. Não existindo relacionamentos perfeitos, uma hora vem a quebra, é inevitável. Mais do que isso, a desidealização (sair do ideal) é algo importante. Algumas relações, quando se quebram, não têm conserto. O mais adequado é nos despedirmos delas, superando-as e deixando espaço para que venham oportunidades mais felizes. E existem aquelas nas quais vale a pena investir nosso ouro – tempo, dedicação, energia – para que sejam reparadas. Pelo que foram antes da quebra. Porque estamos dispostos a investir nelas o que temos de melhor e descobrir o valor que podem ganhar depois, enriquecidas pelo processo de reconstrução.

 

Imagens de Martin Howard e Yuri (Flickr)

Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais. Em minha busca por ser uma pessoa melhor, já fiz diversas terapias e percorri um bom caminho de autoconhecimento. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo". Apaixonada por música, livros e boas conversas.

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