Amizade e as delícias de ser quem se é!

Quando criança, insistia em ter uma “melhor amiga” e queria muito ser a “melhor amiga” de alguém. Pela adolescência continuei com essa ideia, conseguindo ampliar para duas ou três “melhores amigas”. Na Universidade comecei a ampliar um pouco a minha perspectiva, entendendo que há diferentes possibilidades para ser amiga de alguém. Bom mesmo é poder contar com uma diversidade de pessoas, com as quais se podem ter as melhores experiências de si mesma e assim possibilitar as melhores experiências também.

Tem os melhores amigos para dividir trabalhos chatos e sérios, tem os amigos para as cervejas, amigos para colocar em prática importantes projetos, outros para curtir preguiçosas tardes. Amigos para compartilhar sorrisos, dúvidas, convicções políticas e um café com canela nos dias de inseguranças. Há também aqueles para contar as conquistas novas, as alegrias, as vitórias. Tão valorosas quanto as pessoas que nos acodem, são aquelas que se alegram verdadeiramente em nos ver felizes.

Amigas com quem se gosta de viajar são especialmente incríveis, são aquelas que suportam o melhor e o pior de quem somos, e vice-versa. Tem uma passagem do filme “Amor além da Vida” em que a personagem do Robin Williams atravessa um lugar sombrio e turbulento ao lado de um amigo que foi seu professor. Depois ele compreende que esteve o tempo todo ao lado de seu filho, única pessoa com quem ele conseguiria “atravessar o inferno”. Sempre me marcou muito esta passagem, ainda mais quando eu reconheço que só foi possível passar pelos meus períodos infernais exatamente porque eu não estava sozinha.

Quando me descobri doente aos 31 anos de idade, compreendi que a minha jornada nesta vida exigia ressignificação. Fiz todo o tratamento prescrito pelos médicos, voltei para a terapia, busquei ajuda espiritual, mas realmente considero que fui curada pelo amor e pela amizade. O mais bonito é que eu não tive amigos condescendentes, muito pelo contrário. Estas pessoas que realmente me amavam também compreendiam que eu precisava mudar, significativamente. E sabiam disso por reconhecerem em mim virtudes e potencialidades que eu mesma estava negligenciando.

O mais difícil em todo este processo de intensas mudanças foi me revelar inteiramente. Deixar as pessoas entrarem em contato com as minhas bagunças, incoerências, inconsistências. Foi difícil sair do pretensioso lugar de quem sabe e aconselha, para falar de medos e dúvidas. Perdi muito do que eu acreditava que me dava valor e realmente tive enorme receio de perder as pessoas. De fato, algumas se foram, outras eu deixei ir. Foi dolorido perceber que eu sustentava ou me mantinha em relações que eram mais de coleguismo e interesse, do que de amizade, sintomas do meu próprio desamor. Quanto mais eu queria me parecer e ser aceita por aquelas pessoas, mais eu me afastava de mim.

Fui compreendendo, então, que amizade mesmo é aquela capaz de nos aproximar de quem somos. E os amigos são aquelas pessoas que nos possibilitam encontros de verdade. Não precisa estar junto sempre, nem o tempo todo grudado. Tenho amigos que encontro com maior frequência, porque as circunstâncias possibilitam. Com outras, encontro muito menos do que eu gostaria. Mas ainda estou repleta da verdade da conversa que tivemos entre algumas cervejas no mês passado. Já aguardo ansiosa rever duas grandes amigas. De outras que moram distante, tenho me sentido em falta e com muita saudade. O melhor é que sabemos que no próximo encontro retomaremos a conversa do ponto em que nos despedimos, confortáveis pelo tanto que já nos conhecemos, mas felizes por visitar ainda mais sobre nós mesmas.

Amizade, amor romântico e família

Valorizo tanto a amizade que faço questão de ser amiga de quem namoro. Percebo que os ideais de amor romântico prescrevem expectativas inatingíveis para as relações amorosas tradicionais e isso é muito ruim. As pessoas se perdem nas relações. Mas a amizade entre pessoas que se amam ajuda a respeitar a individualidade e a manter a boa parceria. Quando a gente escuta, conhece e admira a pessoa com quem a gente está, compreende que é violento se impor sobre a liberdade da pessoa de ser como se é, e assim se revelar.

Amizade é uma modalidade de amor que nos ensina a acompanhar o crescimento da outra pessoa e com ela também crescer. Isso me faz pensar na amizade com a minha mãe. Sempre ouvi que mãe não deve ser amiga de filha para não perder a autoridade. Talvez isso tenha tido alguma lógica num período da vida em que uma das funções desta relação fosse instituir obediência e disciplina. Hoje não faz mais nenhum sentido ser assim. Penso que o tempo com a minha mãe está cada vez mais estreito, o que intensifica a minha vontade de que nossos encontros sejam cada vez mais significativos. Suponho mais sobre os medos da minha mãe, do que de fato a ouvi falar sobre eles. Assim também suponho sobre as suas maiores alegrias e realizações. Penso que algumas delas passam por mim, boa parte dos medos, também. Mas tem tanto mais dela que eu não sei. E tanto de mim que ela desconhece. Vai ser lindo viver com ela esta dimensão de amizade.

Concluindo…

Termino este texto manifestando minha gratidão à amiga que me incentivou a escrevê-lo. Tenho descoberto que o meu caminho de amor e felicidade só pode ser lido se for por mim escrito. Com os múltiplos papéis que desempenhamos na vida, só o que não vale é manter-se coadjuvante de si mesma. Em conjunto com amigos, consegui rever boa parte dos meus enredos e roteiros. Nas relações de amizade, compreendi o valor do meu protagonismo, de me sentir plena de quem sou. E não há delicia maior!

Sou Daniela Tiffany, psicóloga e ativista no movimento negro e feminista. Sou do samba e do axé. Tenho me dedicado aos meus processos de autoconhecimento e cura, em contato com a minha cultura e ancestralidade. Escrevo pelo desejo de me revelar e me descobrir. Narrando e criando, novas oportunidades de ser, em significativas relações. tiffanybhz@gmail.com

3 comentários em “Amizade e as delícias de ser quem se é!

  1. Que texto maravilhoso! Me identifiquei muito com vários pontos. Amizades são o nosso recanto invisível de paz e amor! Sinto-me muito amado pelos meus. <3

  2. Parabéns pelo site, pelos textos e pelas ações ativistas! Somos todos iguais no que diz respeito a direitos, mas ainda falta muito para isto se revelar em praticas que respeitem as diferenças e igualdades de direitos. Desejo-lhe realizações e sucesso! Muita luz em sua caminhada!

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