Posso te ajudar?

Uma pessoa está muito angustiada com alguns problemas, e uma outra quer muito lhe valer. Esta, então, começa a perguntar à sua companheira o que pode fazer para lhe ajudar a lidar com as suas questões.

– Nada… Te agradeço, mas preciso ficar sozinha para ventilar minhas ideias.

– Não, você não está bem. Ficar sozinha não é uma boa ideia. Deixa eu te ajudar!

– Escuta, eu quero ficar sozinha, olhar a natureza, isso me acalma e logo ficarei melhor.

– Olhar a natureza? Já sei! Tenho uma casa de campo com uma vista maravilhosa, sei que lá você ficará muito bem. Vamos comigo?

– Eu estou te dizendo que preciso e quero ficar sozinha. Obrigada, mas dispenso sua ajuda.

A “ajudante” começa a andar de um lado para o outro, aflita. Sua companheira vai para uma montanha, onde parece se sentir bem. Logo a outra “dá um jeito” de se aproximar dela.

– E aí, está melhor?

– Sim.

– Então tá. Agora me diga então o que está acontecendo, pra que eu possa te ajudar…

– (Já nervosa) Eu não quero, estava muito bem aqui até você chegar, já te disse que estou melhor sozinha.

– Então me deixa pelo menos segurar a sua mão…

A outra explode e lhe pede licença.

 

 

Presenciei essa cena numa vivência sobre compulsões, numa Jornada de Psicodrama. Situações como essa, comuns na vida cotidiana (é só observarmos bem pra ver), sempre me colocam a pensar: Quem está precisando de ajuda? A necessidade de quem está em foco? Alguns de nós têm uma imensa necessidade de ajudar os outros, como se isso de alguma forma aumentasse o nosso valor pessoal… Será que assim é possível ajudar alguém?

Como escolhi uma profissão de ajuda, sempre faço esse tipo de reflexão, até mesmo buscando uma atuação mais ética. E como tenho “olhos treinados” para isso, muitas vezes fico observando como funcionam as relações adoecidas em função da “ajuda” em outros contextos: familiar, entre amigos, entre casais – as relações codependentes. Os teóricos que estudam o tema costumam se referir a um jogo de papéis que acho muito ilustrativo: é o Triângulo de Dramas, em que estão envolvidos os papéis de Salvador, Perseguidor e Vítima. Aqui chamarei duas pessoas hipoteticamente envolvidas numa relação desse tipo de José e Maria, para clarear o exemplo, sem confusões.

 

O papel de Salvador envolve mais do que ajudar, é SALVAR as pessoas. Perceba a diferença: Quando eu me proponho a AJUDAR alguém, considero que a pessoa à minha frente é alguém de valor, que eu respeito e que por algum motivo precisa de ajuda para passar por uma dada situação. A vida é assim mesmo – algumas coisas nós somos perfeitamente capazes de fazer sozinhos, e para realizar outras precisamos de ajuda externa, e nem por isso somos menores do que os outros. Já SALVAR alguém é diferente: normalmente quem está salvando considera o outro um tanto incompetente para lidar com a situação e, na maioria das vezes, com a sua vida como um todo. Faz-se presente o seguinte pensamento (muitas vezes bem escondidinho): “Se eu não ajudar o fulano, coitado, ele não dá conta”… Assim, quem salva procura não somente satisfazer as necessidades do “coitado do fulano”, mas adivinhá-las, como se essa pessoa fosse uma Vítima, alguém que não é capaz de ser responsável por si mesmo. Na realidade todos somos capazes de nos responsabilizarmos por nós e nossas vidas, mas na percepção de quem salva – e, infelizmente, também na percepção quem está no papel da Vítima – isso não é verdade, o “pobre coitado” depende de alguém para lhe salvar, ou pode sucumbir.

 

O Salvador, no nosso exemplo José, “faz de tudo” para salvar a Vítima (Maria), muitas vezes deixando de cuidar de si e dos seus interesses e colocando-a e às suas questões como prioridade. Assim ele se sente bem, poderoso, muitas vezes superior a Maria (é claro que esse é um outro sentimento que muitas vezes vem escondido, inconfessável). É comum que Maria comece esse jogo sendo grata a José – o que significa responder bem aos seus estímulos –, mas isso normalmente não se sustenta por muito tempo. Afinal, Maria tem uma vida própria e nem sempre está precisando ser erguida por alguém, então ela segue seu caminho. Normalmente esse é o momento em que José pode ficar ressentido com Maria – ele fez algo que não queria fazer, ignorou suas necessidades e desejos, e ela não é grata por sua ajuda. Então José passa a desempenhar o papel de Perseguidor, hostilizando Maria, que normalmente sente a mudança de comportamento e passa a também ficar agressiva com José, aquele que assumiu a responsabilidade pelos seus problemas, o que direta ou indiretamente diz o quanto ele a julga incompetente, e ainda fica com raiva dela depois de desmoralizá-la. É aí que José passa a ocupar o papel de Vítima, com os sentimentos de desespero, mágoa, tristeza, vergonha e autocompaixão. Ele foi usado – de novo. Não foi reconhecido – de novo, como sempre acontece na sua vida. Maria muitas vezes se vê impelida a fazer algo por ele, mesmo estando com raiva – se colocar no lugar de Salvador. Ou ela faz isso, e continua o ciclo, ou vai embora sem querer nunca mais ver José. Mas depois de um tempo o ciclo acaba se repetindo, com os mesmos José e Maria complementando seus papéis, ou com outras pessoas que surgirão em suas vidas…

 

Você já viu uma história como essa? Pois é, eu já vi tantas que nem consigo enumerá-las. E acho uma pena, porque sempre é um enredo muito triste, em que todos sofrem. Esse é o ponto em que um grande amigo me perguntaria: “Mas e aí? Como é que faz, psicóloga”? E eu respondo que a melhor maneira de construirmos relações mais saudáveis com as outras pessoas é cuidando muito bem de nós mesmos. Antes de sair por aí atendendo às necessidades dos outros (nota importante: muitas vezes não são as necessidades dos outros, é o que nós achamos que os outros necessitam; você pode conferir a veracidade dessa afirmação se perguntando se o outro realmente expressou do que precisava) é sempre bom olhar pra dentro e verificar quais são as minhas necessidades. O que estou sentindo? O que me falta? O que me faz pleno/a? De que preciso? O que busco quando quero ajudar essa pessoa? Atendê-la numa necessidade dela? Ou me sentir bem, sabendo que assim, ajudando os outros, eu tenho valor? Qual o valor que eu tenho, independente de estar ajudando alguém? Preciso estar nesse papel para saber que sou bom/boa? Se essa pessoa não quiser minha ajuda ou minha presença na sua vida, que peso isso terá sobre mim?

O que acho mais efetivo é um olhar profundo e carinhoso para si mesmo, pois a partir daí é possível se cuidar melhor e, estando mais nutrido naquilo de que se necessita, ajudar o outro de uma forma mais verdadeira. É como aquelas instruções que recebemos no início de cada viagem de avião: Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente à sua frente. Se você está sentado ao lado de alguém que precisa de ajuda, coloque primeiro a máscara em você e, quando se certificar de que está respirando bem, ajude o outro. Ou seja: cuide-se primeiro, para estar em reais condições de ajudar alguém. Se não, podem ficar os dois sem ar… Vale uma vida!

 

Se quiser saber mais sobre codependência e esse jogo de papéis, recomendo os livros Para além da codependência e Codependência nunca mais, de Melody Beattie, e O amor é uma escolha: recuperação para relacionamentos codependentes, de Robert Hemfelt, Frank Minirth e Paul Meier.

Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais. Em minha busca por ser uma pessoa melhor, já fiz diversas terapias e percorri um bom caminho de autoconhecimento. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo". Apaixonada por música, livros e boas conversas.

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