O amor é singular. O amor é compartilhado.

Esse texto é um relato de uma vivência da qual participei no 21° Congresso Brasileiro de Psicodrama: “Escolha amorosa: por que escolho quem escolho?”, dirigida pela Adelsa Cunha, psicóloga e psicodramatista1. O tema das escolhas amorosas é muito especial para mim, tanto que há mais de 10 anos venho dirigindo vivências e workshops sobre ele2. Além da importância do tema, escolho escrever esse texto pela importância do compartilhar. Numa sessão de Psicodrama, o compartilhar (sharing) é a etapa seguinte à da dramatização. Nele, protagonista e plateia expõem a repercussão do que foi vivido, havendo uma troca não apenas de pensamentos, mas principalmente de sentimentos vivenciados. Vai aqui, então, meu compartilhar, somado a algumas reflexões.

Adelsa dirigiu um Psicodrama interno – modalidade de trabalho em que a ação dramática, depois do aquecimento, acontece no interior de cada indivíduo, que vivencia de olhos fechados, através de uma visualização conduzida. A escolha foi essa, segundo ela, para que todas e todos pudéssemos vivenciar um tema tão íntimo e delicado, de modo seguro, protegido. O foco do trabalho grupal estava justamente na etapa do compartilhar, em que as pessoas que se sentiram à vontade falaram de sua vivência.

E como foi bonito! Foram muitas pessoas se colocando, de forma emocionante. Vou resumir algumas falas, como eu me lembro:

  • Uma mulher relata a sua relação com o pai, como seu primeiro amor, um modelo de cuidado e admiração; e como ela vive os seus relacionamentos amorosos dirigida pelo cuidado, oferecendo o que tem de melhor para o outro.
  • Uma mulher de meia idade conta como viveu dois casamentos baseando sua escolha em padrões de sua família de origem, e como sempre teve desejo de se relacionar com outro tipo de homem, de classe social diferente, mais livre e despojado. Hoje, depois da segunda separação, vive essa relação e sente-se livre e feliz.
  • Uma moça de vinte e poucos anos que nunca viveu um relacionamento com reciprocidade. Todas as pessoas por quem se interessou caíram na “friendzone3”. Ela expressa o seu desejo de viver um namoro, de amar e ser amada.
  • Uma mulher relata o seu sofrimento no casamento. Conta que traiu o marido, eles continuam juntos e ela convive cotidianamente com a culpa pelo que fez. Não consegue se perdoar.
  • Um homem (o único a compartilhar sua vivência no grupo!) conta que sempre foi escolhido, mas que nunca escolheu suas parceiras. Orienta-se pelo interesse da outra pessoa, e relaciona isso à sua vivência amorosa com a mãe.

A partir daí, seguem algumas reflexões:

O amor é um tema íntimo, delicado, que mexe com sentimentos do fundo da nossa alma. Mas, no fundo, são experiências e sentimentos comuns, com os quais é fácil se identificar. Eu me vi em vários dos relatos que escutei ali. Se não no presente, no passado (ou, quem sabe, no futuro?). Assim como eu, várias pessoas naquela sala se expressavam, com o olhar e os gestos, enquanto ouviam as outras, como que dizendo “Eu também”.

Me lembrei de como nos emocionamos com histórias de amor, em filmes, livros e canções. Obras de amor construídas por outras pessoas, e que nos tocam fundo.

Me lembrei das diversas conversas sobre experiências amorosas com amigas e amigos. Essas são conversas valiosas para irmos dando sentido a quem somos e o que buscamos no amor. Hoje vivo um relacionamento amoroso feliz, e tenho as mãos dadas com várias amizades queridas que me ajudaram a conquistar a segurança interna para viver isso. (Gratidão!)

Me lembrei, é claro, dos vários relatos amorosos compartilhados em psicoterapia e em vivências grupais sobre o tema.

E fico pensando em como, quando estamos passando por momentos delicados, imaginamos que nossa experiência é única, que nossa dor é única, que nossa confusão é única, que nosso êxtase é único. Mas não. Enquanto sujeitos do amor, somos mais parecidas e parecidos do que costumamos imaginar. É em grupos (família e sociedade) que construímos, de forma consciente ou não, nossas ideias e ideais sobre os relacionamentos. E é em grupos, nas conversas e reflexões compartilhadas, que temos grande chance de nos questionar, desconstruir, buscar construir de uma forma mais interessante e feliz.

O livro organizado pela Adelsa e meu momento tietagem

Obrigada, Adelsa!

 

1Adelsa é organizadora do livro “Por todas as formas de amor: o psicodramatista diante das relações amorosas” (Ed. Ágora, 2014).

2O mais recente deles, em parceria com Ana da Fonseca Martins, “Imagens do amor: vivendo e refletindo sobre os relacionamentos amorosos”, aconteceu em junho de 2017.
3Na cultura popular, friendzone é o nome dado para uma relação em que uma pessoa deseja ter um relacionamento romântico com outra, mas esta prefere apenas manter a amizade.

Imagens: Pixabay e arquivo pessoal

 

Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais. Em minha busca por ser uma pessoa melhor, já fiz diversas terapias e percorri um bom caminho de autoconhecimento. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo". Apaixonada por música, livros e boas conversas.

2 comentários em “O amor é singular. O amor é compartilhado.

  1. Querida Juliana. Que alegria ler esse seu compartilhar generoso e afetivo. Belas reflexões a respeito das escolhas amorosas.
    Fico feliz de, a partir da vivência por mim dirigida, ter contribuido para seu aprofundamento neste tema tão essencial a todos nós. Gratidão.

    1. Adelsa querida, também fico feliz com a construção conjunta!
      Assim vamos levando adiante as ideias e o trabalho de Moreno. Aquecendo, dramatizando, compartilhando, processando…
      E refletindo/construindo sobre tema realmente tão caro.
      Gratidão!

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