O amor e o equilíbrio entre dar e receber

Os relacionamentos amorosos são uma área em que a maioria de nós deseja realização. Mudam as configurações, diferentes épocas trazem diferentes modelos, mudam as expectativas… Mas todo mundo (ou quase) quer “ser feliz no amor”.

Penso que um bom parâmetro para verificar se uma relação é saudável é o equilíbrio entre dar e receber. Bert Hellinger, o pai das constelações familiares sistêmicas, postula esse equilíbrio como uma das leis para que o amor dê certo. Mas aqui não vou focar em constelações familiares. Faço colocações do ponto de vista da Psicologia.

A dinâmica dos papéis nos relacionamentos amorosos

J. L. Moreno, o pai do Psicodrama, define papel como unidade primária de conduta: é no desempenho de papéis que nós agimos no mundo. Quando há interação entre papéis, está formado o vínculo. Nós desempenhamos diversos papéis durante a vida: de estudante, de profissional, de filho/a, amigo/a, dentre tantos outros. E também o papel de sujeito do amor: aquele/a que recebe e que dá amor, num vínculo afetivo-sexual.

Existem vínculos assimétricos e simétricos. Nos primeiros, os papéis desempenhados são diferentes, e a força e responsabilidade que eles exercem também: mãe-filho/a, pai-filho/a, professor/a-estudante, chefe-chefiado/a etc. Nos vínculos simétricos, não há uma pessoa maior ou mais responsável do que a outra. É assim nas relações de amizade, de coleguismo e, idealmente, nos relacionamentos amorosos.

Mas, como o real muitas vezes se distancia do ideal, é comum conhecermos ou experimentarmos vínculos amorosos assimétricos. Como quando uma pessoa cuida e outra é cuidada, ou uma manda e a outra obedece, ou uma tem o poder e a autonomia e a outra é dependente.

É como uma gangorra: Pra uma pessoa estar encima, a outra precisa estar embaixo

Nós vamos aprendendo o que é amor no decorrer da nossa história, e nossos primeiros aprendizados sobre isso acontecem no contexto da família. Ali nós temos um modelo de relação de casal entre pai e mãe (como quer que esse vínculo esteja configurado) mas, tão importante quanto isso, nós vamos vivenciando o que é receber amor, ternura, cuidados. E essa vivência influencia muito a forma como vamos desempenhar o papel de sujeitos do amor na nossa vida. Eu já escrevi sobre isso num outro texto (para ler, clique aqui).

Assim, nossas primeiras experiências amorosas dão-se em vínculos assimétricos: a mãe, pai ou substitutos atendem (à sua maneira) as nossas necessidades, nos provêm de amor e daquilo que precisamos para crescermos, mas nós não fazemos o mesmo por eles. E é normal que seja assim. Daí nascem a nossa autoestima – o saber-se merecedor/a de amor e cuidados, de forma natural – e, um pouco mais tarde, a autonomia – a capacidade de identificar e buscar o que queremos. Depois, com a convivência com irmãs e irmãos, primos/as e coleguinhas, passamos a desenvolver vínculos simétricos, em que exercitamos a cooperação, a competição, o compartilhar.

A questão é que, inúmeras vezes, nós buscarmos relacionamentos amorosos ainda segundo o modelo de amor que aprendemos na nossa infância! E aí, relações que deveriam ser simétricas acabam se formando de forma assimétrica, com papéis diferenciados e rígidos.

Isso não vai dar certo…

Essa busca vai depender, claro, de como experimentamos o crescimento e aprendizado amoroso na nossa história. Há pessoas mais cristalizadas na dependência afetiva, no receber cuidados, com dificuldades na autonomia. Elas tendem a sentir-se mais indefesas e dependentes. Buscam cuidado e atenção da outra pessoa e para elas é difícil se posicionar com responsabilidade na relação. O outro dá as regras e tem o poder.

Por outro lado, há pessoas que têm dificuldade em receber cuidados e amor. Elas tendem a exagerar na autonomia, deixando de lado a própria vulnerabilidade e substituindo a força pela dureza. Tomam a frente de tudo, controlam a relação. Cuidam da outra pessoa e não se deixam ser cuidadas.

Não é difícil concluir que um tipo de pessoa acaba atraindo o outro, de modo complementar.

E o equilíbrio entre dar e receber?

Para estar numa relação saudável é muito importante, como indivíduo, saber-se frágil. Incompleto/a. Vulnerável. Poder receber da outra pessoa aquilo de que se necessita, sem que isso seja sinônimo de inferioridade e submissão.

E ao mesmo tempo saber-se forte. Protagonista da própria história. Posicionar-se na relação, cuidar de si e da outra pessoa, sem que isso seja sinônimo de superioridade, de distância, de um poder que humilha o outro.

Caminhar juntos

E você?

Como costuma se relacionar amorosamente? Reconhece um padrão?

Experimente fazer um exame de si mesmo/a. Olhar para si e para as próprias forças e vulnerabilidades certamente se refletirá na qualidade dos seus relacionamentos.

 

Obs.: Esse texto foi escrito com grande contribuição de Ana Martins, em nossos estudos sobre o amor, e é a base do terceiro encontro do workshop terapêutico “Era uma vez o amor…”. Para saber mais sobre o workshop, clique aqui.

Imagens: Pixabay

 

Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais. Em minha busca por ser uma pessoa melhor, já fiz diversas terapias e percorri um bom caminho de autoconhecimento. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo". Apaixonada por música, livros e boas conversas.

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