“No amor, quem perde quase sempre ganha”

Relacionamentos amorosos: Eles, que por vezes nos atraem com avidez e outras nos fazem fugir com aversão. Cheios de surpresas, emoções e, não raro, armadilhas… Hoje escrevo sobre eles fazendo referência à música “Lero lero”, gravada por Edu Lobo, cheia de ditos populares, com a simplicidade e a sabedoria que eles contêm.

Mais especificamente, me atenho a um trecho da canção, que vivo citando em atendimentos de psicoterapia:

“Porque no amor quem perde, quase sempre ganha

Veja só que coisa estranha, saia dessa se puder”.

Queremos ganhar, sempre que possível. Somos criadas/os para isso. É difícil lidar com a frustração da perda.

Mas todas as coisas que conquistamos na vida têm um preço. Na vida, e também no amor, não existe uma dinâmica em que se ganha sem fazer nenhum esforço por isso. Ou, se alguém só está ganhando, possivelmente tem alguém só perdendo. O que não é saudável, nem em relacionamentos amorosos nem nos sociais. Estamos falando de relações desequilibradas. Abusivas.

Os ganhos

Sempre observo, no consultório e em conversas informais, um pedido geral das pessoas (especialmente as solteiras): Quero namorar… Quero casar… Quero amar!…

Mas, ao escutar esse pedido com atenção e me aprofundar nele, percebo que o que a maioria das pessoas deseja, quando diz querer viver o amor, é ser amada! É receber a parte boa.

Primeiro de tudo, o status de pessoa bem-sucedida amorosamente.

E também o carinho, o chameguinho, o cuidado… Ter alguém para contar como foi o dia, boa companhia e companheirismo.

E aí, quando se encontra um relacionamento e ele acaba “não dando certo”, surgem as perguntas sobre o que está errado – consigo ou com a outra pessoa. “Será que não escolhi direito”?

Pergunta-se sobre padrões repetitivos, procura-se algo que se possa melhorar em si para ter relacionamentos mais felizes. O que eu, particularmente, acho que é uma ótima busca, mas que não se aplica a todos os casos de instatisfação na vida amorosa.

Numa boa parte das vezes, o que “pega” (e que pode ser um padrão) é que a pessoa não quer pagar o preço de viver, realmente, o amor. Não quer se doar. “Perder” para ganhar.

As perdas

Aqui, quando falo de perder, estou falando de abrir mão.

Para muitas pessoas é difícil reconhecer, mas é muito interessante estar só.

(Talvez seja difícil admitir porque vivemos numa cultura que supervaloriza os relacionamentos amorosos. Hoje acredito que seja mais fácil. Estamos ressignificando o valor de certas verdades, nos permitindo mais, abrindo nossos horizontes…)

Não estar num relacionamento amoroso implica em:

  • Muito mais liberdade para fazer o que quisermos, no momento que quisermos e da forma que quisermos.
  • A possibilidade (e, de novo, a liberdade) de investir toda a nossa energia em projetos pessoais: estudos, crescimento profissional, viagens, lazer; ou outros, como cuidados com nossa família de origem…
  • A possibilidade de flertar com quem quisermos… De viver paixões sem aprofundamento na relação.

É necessário abrir mão (pelo menos em certa medida) dessa liberdade para permitir que outra pessoa entre em nossa vida. Para sermos amadas/os mas, também e ao mesmo tempo, amar:

  • Dar atenção;
  • Ceder;
  • Fazer juntos (o que significa que as coisas não serão apenas do nosso jeito);
  • Permitir que outra pessoa nos “incomode”: nos tire do comodismo de olhar as coisas da forma como já estamos habituadas; que atrite conosco; que dê trabalho;
  • Entrarmos, com consciência, na vida de outra pessoa, e saber que incomodamos, que somamos, que seremos vistas/os na nossa intimidade, no nosso mais belo e no nosso mais feio.

Mas, na minha opinião, essas “perdas” são desafios que dão aos relacionamentos o potencial de nos fazer pessoas melhores, de alcançar experiências que não conseguimos viver sozinhas/os.

Viver e construir um relacionamento legal demanda empenho, dedicação e constância.

Às vezes não queremos fazer esse e esforço. E tudo bem!

Relacionar-se tem vantagens e desvantagens. Ficar só também. O importante é saber que toda escolha tem seu preço. E toda escolha é válida, desde que consigamos assumi-la como nossa e bancá-la.

A questão é que às vezes achamos que vamos perder muito, mas na verdade estamos é ganhando.

Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais. Em minha busca por ser uma pessoa melhor, já fiz diversas terapias e percorri um bom caminho de autoconhecimento. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo". Apaixonada por música, livros e boas conversas.

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