Cultura, ideal de amor e a vida real

 

Qual é sua história de amor favorita? Qual é o enredo do livro, filme, novela… que mais te marcou até hoje? E as canções de amor, de quais você mais gosta? Nessas produções culturais que mais te tocam, como o amor é contado?

Começo esse texto cheio de perguntas, para provocar a reflexão sobre a influência que sofremos da cultura no nosso jeito de amar.

Nós sempre temos expectativas a respeito do amor. Aquilo que entendemos que é o “amor ideal” e que buscamos em nossas relações. E, como seres em relação, não construímos esse ideal sozinhos. Um primeiro e importante aprendizado sobre o que é o amor acontece na nossa família de origem – escrevi sobre isso recentemente nesse post aqui. E uma outra boa parte dos nossos critérios de busca amorosa vem do que a cultura nos diz que é bom no amor. Os meios de comunicação, com os quais temos contato desde a infância e continuamos tendo por toda a vida, nos “vendem” ideias e sonhos, e é preciso ter a cabeça muito boa pra não sair consumindo sem reflexão tudo o que está a venda por aí.

 

O ideal de amor romântico

Nas histórias de amor mais tradicionais, o enredo costuma seguir o ideal de amor romântico, em que:

  • O amor vem de forma arrebatadora e urgente, é mais importante do que a maioria das outras coisas na vida;
  • A felicidade amorosa é o passaporte para a felicidade;
  • A pessoa amada é maravilhosa, há uma idealização dela e uma anulação da pessoa que ama;
  • É uma relação de completude, do tipo “almas gêmeas”, e vale lutar contra qualquer coisa por ela – algo do tipo “somos nós contra o mundo”. E, se tudo der certo (como normalmente dá, na ficção) acontece um “final feliz”.

Isso corresponde à trama de suas histórias de amor favoritas? Eu conheço muitas assim, acho que a mais clássica dos nossos tempos é Titanic (James Cameron, 1997).

Nos enredos mais atuais, tenho visto outro tipos de história se desenrolar, e acho que isso é bom.

 

“Desidealizando” o amor

Mas qual é o problema com o ideal de amor romântico?

O problema é que ele é um ideal. Ao consultar essa palavra no dicionário, encontramos:

Substantivo masculino: Conjunto imaginado de perfeições que não podem ter realização completa; a mais querida das aspirações.

Adjetivo: Que só existe na ideia; que reúne toda a perfeição imaginável; quimérico, fantástico, imaginário.

Fonte: Dicionário Priberam

E nós, tendo contato com essas estórias, queremos viver o amor desse jeito nas nossas vidas! Buscamos esse tipo de amor, que não se sustenta na vida real, e quando não o encontramos normalmente tendemos a desacreditar da pessoa que escolhemos (“não era a pessoa certa”), ou a desacreditar de nós mesmos enquanto sujeitos de amor (“deve ter algo errado comigo, já que não consigo viver isso), ou ainda a desacreditar do amor em si (“o amor é uma bobagem”).

E eu penso numa outra alternativa: a desconfiar desse amor “enlatado”, vendido para nós nas estórias como condição imprescindível à felicidade. O amor romântico é apenas uma forma de se viver o amor. Há pessoas que vivem assim e são felizes (outras nem tanto), mas não é a única forma de amar, e nem sequer a mais saudável.

Coisas que normalmente não estão incluídas no “pacote” do amor romântico, e que eu considero importantes para se viver/pensar o amor de modo mais inteiro e sustentável:

  • O relacionamento amoroso é como uma construção, feita juntos, tijolinho a tijolinho.

    A outra pessoa (ou outras pessoas, já que há quem tenha relacionamentos a mais de dois) é um ser humano, com suas maravilhas e com suas necessidades, qualidades e defeitos. É impossível que ela te complete e realize todos os seus desejos de felicidade.

  • A propósito, você também é um ser humano, que tem as suas necessidades e carências, e também as suas maravilhas. Aposte nisso!
  • Às vezes queremos ficar junto, e às vezes queremos – e precisamos – ficar separado. Normal. É o equilibrio entre proximidade e distância na nossa vida.
  • O amor nos sensibiliza profundamente, mexe com muitas das nossas emoções e sentimentos. Não é só agradável e gostoso, justamente por ser tão profundo. Sentir coisas que não combinam com o ideal de amor romântico, como raiva, frustração ou tristeza, não necessariamente é um sinal de que esse relacionamento não vai bem. É importante saber lidar com as delícias e as dores do estar com alguém.

E aí? Como suas estórias de amor influenciam sua vivência de amor? Que enredos amorosos são clássicos pra você? Como representantes do ideal de amor romântico ou de novas configurações amorosas? Conta pra gente, deixe seu comentário!

 

Obs.: Esse texto foi escrito com grande contribuição de Ana Martins, em nossos estudos sobre o amor, e é a base do segundo encontro do workshop terapêutico “Era uma vez o amor…”.

Imagens: Divulgação Titanic / Pixabay

 

Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais. Em minha busca por ser uma pessoa melhor, já fiz diversas terapias e percorri um bom caminho de autoconhecimento. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo". Apaixonada por música, livros e boas conversas.

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