Talento, doença, sucesso, tratamento…

Há poucos dias a cantora-fenômeno-diva Amy Winehouse deixou nosso mundo, o que trouxe uma série de repercussões públicas, desde manifestações de fãs – ou não – até reflexões a respeito do seu modo de viver – e de morrer –, seu comportamento polêmico e sua arte.

A revista Isto é trouxe, na edição dessa semana, uma boa reportagem sobre o “lado B” de Amy, que acho digna de leitura. Destaco também o excelente texto de Marcelo Gomes, Psicólogo clínico, a respeito da cantora e uma “turma” de outros que tiveram destinos semelhantes, além de ponderações sobre os benefícios que uma boa Psicoterapia pode trazer.

Abaixo o texto do Marcelo. Convido todos a compartilharem suas impressões e opiniões!

 

Amy Winehouse, Michael Jackson e Cia, daria pra evitar?

Marcelo Gomes*

Toda vez que penso nesses indivíduos talentosos e reverenciados que viveram vidas breves e infelizes, penso se seu talento dependia de uma personalidade patológica, ou se eles poderiam ser ao mesmo tempo brilhantes e felizes. O fato de haver outros sujeitos brilhantes e felizes não resolve essa questão, pois pode ser que alguns talentos só se desenvolvam mesmo com uma boa dose de miséria existencial. Mas tendo a pensar o contrário, acho que esses sujeitos poderiam ter uma vida menos miserável, talvez até felizes. E olha que são muitos: Michael Jackson, Elvis, Kurt Cobain, Elis Regina, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, e a mais recente, Amy Winehouse. Todos ao mesmo tempo modelos de excelência e devotados a um processo autodestrutivo. E sempre penso: será que eles não tentaram uma psicoterapia? Penso isso porque tanto minha experiência pessoal quanto profissional me confirmam a enorme diferença que pode fazer uma boa psicoterapia. Acho que essa opinião vai na contramão do senso comum, que de forma geral quase nunca considera a possibilidade de uma terapia, e muitas vezes acha que é simplesmente uma perda de tempo e dinheiro. Já virou até um bordão meu, quando alguém comenta que fulano está muito mal por algum motivo: “mas fazer uma psicoterapia, nem pensar, né?”

É claro que não é rápido, nem barato (bem, às vezes até é), mas é impressionante como pode funcionar tanto com graves problemas existenciais quanto com pequenas neuroses do dia a dia. E sempre tem um que fala “mas eu (ou fulano, ou sicrano) já fiz e não adiantou nada”. Aí eu penso: você vai num advogado, e ele não consegue te ajudar. Você nunca mais vai procurar um advogado, ou vai parar de acreditar no Direito? Se você não gosta do atendimento de um médico, ou não confia no seu diagnóstico, você desiste da Medicina?

Psicólogos são como todos os outros profissionais, podem não te ajudar da forma que você queria, ou no momento que você julga oportuno, ou podem ser incompetentes mesmo. Isso não invalida o benefício que uma psicoterapia pode trazer. Às vezes é necessário insistir mais um pouco. Sinceramente, já vi mudanças impressionantes, pessoas que transformaram toda sua experiência existencial, e nem sempre demora tanto assim. Obviamente, nem sempre funciona tão bem, e sou adepto de uma relação pragmática: se não está funcionando, melhor parar e tentar com outro profissional. Senão você pode insistir por dez anos e não fazer diferença nenhuma…

É óbvio que estou advogando em causa própria, sou um psicólogo clínico. Ao mesmo tempo, fico triste com a impressão que esse recurso é subutilizado e subavaliado socialmente. No entanto, medicamentos, autoajuda, esoterismo e processos meio paliativos de um fim de semana fazem muito sucesso. Prometem muito, mas realizam pouco. O Prozac (que já saiu de moda) não acabou com a depressão, O Segredo não deixou seus milhões de leitores ricos e felizes, e aquele curso vivencial parecia ter mudado sua vida, mas depois de um mês, quando o entusiasmo baixou, tudo voltou ao que era. Mas o dinheiro circulou, o mercado agradece.

Estou vendo agora um movimento interessante, patrocinado pelo ex-presidente THC (digo, FHC). O discurso antidrogas, que antes era assunto de segurança pública, agora é encarado como problema de saúde pública. Ou seja, vamos descriminalizar o uso, e tratar o usuário como doente. Assim como o alcoolista e até o tabagista. Sem entrar no debate polêmico se isso é doença ou não (há poucos anos atrás não era), a questão do sentido da droga, a problemática da personalidade, as relações familiares e o comportamento obsessivo são abafados pelo discurso medicamentoso, que por coincidência é muito rentável para laboratórios, médicos e clínicas de internação. Sem dúvida, da segurança para a saúde é um avanço, mas essa abordagem me parece simplista e parcial.

Mas, voltando ao início do tópico, esses artistas poderiam ter sido ajudados por uma boa psicoterapia? É uma pergunta impossível de ser respondida, pois o domínio do “se” é em última análise imponderável. Como dizia meu amigo Serginho, “SE minha mãe tivesse bigode eu teria dois pais” rs. Porém, depois de ver Meia Noite em Paris e Tudo Pode Dar Certo, fico com a impressão que o processo psicanalítico do Woody Allen vai muito bem! É claro que pode ser só uma impressão…

 

*Marcelo Gomes é Psicólogo, Especialista em Psicologia Clínica Fenomenológico-Existencial e Gestáltica. E-mail: mgpjrbh@yahoo.com.br. Visite Marcelo no Facebook.

Sou psicóloga em Belo Horizonte – MG. Atendo Psicoterapia individual, de grupo e terapia de casais. Em minha busca por ser uma pessoa melhor, já fiz diversas terapias e percorri um bom caminho de autoconhecimento. Hoje vivo "a sorte de um amor tranquilo". Apaixonada por música, livros e boas conversas.

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